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Quinta-feira, 31 de Janeiro de 1991
[prefácio para um livro de poemas] - integral



Nicole Etienne, Orange 

 

 

          Conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.

          Víamos - pelo lado menos sombrio do pensamento  - todo o sistema planetário.

          Víamos  o tremelicar da luz nas veias e o lado das emoções na ponta dos dedos. O latejar do tempo na humidade dos lábios.

          E a insóna , com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos. As estrelas mortas das cidades imaginadas.

          os ossos [tristes] das palavras.

 

          A noite cerca a mão inteligente do homem que possui uma cabeça transparente.

          Em redor dele chove.         

          Podemos adivinhar uma chuva espessa, negra, plúmblea.

          Depois, o homem abre a mão, uma laranja surge, esvoaça.

          As cidades (como em todos os livros que li) ardem. Incêndios que destroem o último coração do sonho.

          Mas aquele que se veste com a pele porosa da sua própria escrita, olha, absorto, a laranja.

         

          A queda da laranja provocará o poema?

          A laranja voadora é, ou não é, uma laranja imaginada por um louco?

          E um louco saberá o que é uma laranja?

          E se a laranja cair? E o poema? E o poema com uma laranja a cair?

          E o poema em forma de laranja?

          E se eu comer a laranja, estarei a devorar o poema? A ficar louco?

          [...]

          E a palavra laranja existirá sem a laranja?

          E a laranja voará sem a palavra laranja?

          E se a laranja se iluminar a partir do seu centro, do seu gomo mais secreto, e alguém a [esquecer] no meio da noite - servirá [o brilho] da laranja para iluminar as cidades há muito mortas? E se a laranja se deslocar no espaço - mais depressa que o pensamento e muito mais devagar que a laranja escrita - criará uma ordem ou um caos?

 

          O homem que possui uma cabeça de vidro habita o lado de fora das muralhas da cidade.

          Foi escorraçado.

          [E] na desolação das terras, noite dentro, vigia os seus próprios sonhos e pesadelos. Os seus próprios gestos - e um rosto suspenso na solidão.

 

          Onde mora o homem que ousou escrever com a unha na sua alma, no seu sexo, no seu coração?

          E se escreveu laranja na alma, a alma ficará saborosa?

          E se escreveu laranja no seu coração, a paixão impedi-lo-á de morrer?

          E se escreveu laranja no sexo, o desejo aumentará?

 

          Onde estará a vida do homem que escreve, a vida da laranja, a vida do poema - a Vida, sem mais nada - estará aqui?

          Fora das muralhas da cidade?

          No interior do meu corpo? ou muito longe de mim - onde sei que possuo uma outra razão... e me suicido na tentativa de me transformar em poema e poder, enfim, circular livremente.

 

in «Últimos Poemas»

 

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nescritas às 19:08
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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 1991
os ossos encheram-se de lodo



kadinsky, Dusk
 

  

os ossos encheram-se de lodo e

eu comprei um albatroz empalhado

para te vigiar a alma - ao anoitecer

 

é com os dedos incendiados que enterro

os dias - esta poeira brilhante

que se desprende dos cedros e cai

na fissura entre a máscara e o rosto

 

um lume maligno solta-se então das águas

a pele adquire o sabor do estuque e do bolor

não há morte ou paixão

que esta cidade não conheça - mas o corpo

 

não se lembra de tudo - a noite ardendo

desperta o coração - este palácio de plâncton

e de fantasmas com asas de sombra

 

depois

talvez se ouça o canto quase límpido

do mundo - cinzas onde mergulho

para abrir o tempo e visitar tuas mãos

que a lucidez do amor escureceu

 

in «Últimos Poemas»

 

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nescritas às 19:57
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